Estava tomando café quando André entrou. Parecia aflito e andava de um lado pro outro. Eu na hora achei que tinha descoberto sobre mim e Átila, mas se fosse isso Átila estaria ali também. Tentei manter a calma e esperei ele falar. Ele parou no meio da sala e com a mão na cintura disse: “Tá, eu vou dizer logo. Eu quero voltar. É isso. Eu sinto sua falta e quero voltar.” Eu sorri e o abracei. André sorriu também e disse: “Eu senti muito sua falta.” Depois me beijou.
“Mas assim, ninguém pode saber. Não quero que o Átila saiba.” “Por quê?” “Você viu como ele ficou. Se eu digo que to com você de novo ele fica possesso. Vamo manter segredo.” “Não sei se isso vai dar certo, André.” “Claro que vai. E nem me incomodo se você quiser ficar com outra pessoa, na verdade ajuda no disfarce.” Fiquei sem saber o que dizer. “Calma. Você tá dizendo que eu posso ficar com outras pessoas e você não se incomoda?” “É. Mas não precisa entrar em detalhes.” “E se o Átila quiser ficar comigo?” “Tudo bem, só não precisa me dizer.”
Aceitei. Era um acordo justo. A gente ficava junto e mantinha isso em segredo e eu podia namorar outras pessoas sem ter que dizer quem era. Acordo muito justo. Nos agarramos um pouquinho no sofá onde contei que tinha quebrado o braço no chuveiro, mas André tinha que ir pra faculdade. Vinte minutos depois que ele saiu Átila apareceu. A aula dele daquela manhã tinha sido cancelada. Estava livre como eu (que não fazia nenhuma cadeira na quinta) e veio me fazer uma visita. Perguntei o que ele faria se o André propusesse exatamente o que propôs. “Ficaria livra pra ficar com você.” Respondeu em tom de brincadeira. Mas eu sabia que se dissesse a verdade ele não aceitaria ficar comigo.
“Queria te propor uma coisa, Lu.” “O que?” “A gente fica mais ninguém pode saber e não me importo se você ficar com outra pessoa.” “E se o André quiser ficar comigo?” Plano maquiavélico né? “Pode ficar, mas se ele quiser voltar firme a gente termina.” “Deixa eu ver se entendi: A gente fica, eu posso ficar com outras pessoas incluindo o André, mas só se ele quiser namorar sério de novo a gente termina?” “Isso mesmo.” Justo. Muito justo. Justíssimo.
Depois do acordo de regras fomos para o quarto. Uma manhã inteira livre é a oficina do diabo. Ficamos revirando os lençóis até quase a hora do almoço. Átila teve uma idéia pra me trazer de volta ao grupo. Ia dizer que tinha se arrependido do modo como me tratou e que se André tivesse de acordo seríamos todos amigos de novo. Nos encontramos com a turma no restaurante da faculdade. Estranharam ao me verem exatamente com Átila (que parecia me odiar mais).
Mas, labioso do jeito que era, convenceu a todos (Michele inclusa) de que meu gelo já tinha durado o suficiente. André disse que eu poderia ser sua amiga de novo e a ordem estava restaurada. Voltamos a conversar e brincar como antes. Meu olhar ia de irmão pra irmão. Os dois olhavam pra mim com o triunfo interno de quem esconde um segredo. André às vezes sorria quase se entregando, mas como ninguém notava estávamos a salvo. Átila piscava deliberadamente, mas por ser Átila não se tratava de uma atitude suspeita.
E no meio estava eu. Amando os dois, querendo os dois e secretamente sendo amante dos dois. Realmente não me senti traindo nenhum deles, afinal eles mesmos me deram a liberdade de ficar com quem eu quisesse. Mas sabia, lá no fundo, que isso ia acabar mal. Assim prometi aproveitar ao máximo cada momento.
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