Quando voltamos do feriado notei que André ficava cada vez mais distante de mim. E ele percebia que eu percebia. Ficava desconcertado, mudava sempre de assunto e se ajeitava na cadeira quando me pegava olhando pra ele. Átila tentava acobertar. Nunca deixava que eu e André ficássemos a sós. Também ficava desconcertado e mudava de assunto quando eu pousava meus olhos em André.
Uma semana depois marcamos de ir ao cinema. Eu esperava em casa pelo resto da gangue e André foi o primeiro a chegar. Michele se atrasou porque uma das modelos resolveu comer uma alface amais no almoço e não cabia mais na roupa. Átila estava na aula de culinária (esqueci de dizer isso) e iria de lá para o cinema. Nayana fazia um trabalho da faculdade na casa de uma amiga e Eric ligou dizendo que estava a caminho.
André começou a ficar realmente nervoso quando viu que ficaríamos a sós. Tentou inventar uma mentira pra sair, mas eu fui mais direta. Perguntei o que tinha de errado. “Faz uma semana que você mal olha pra mim, que mal fala comigo.” Silêncio. “É verdade?” Silêncio. “É verdade, André?” “É verdade. Eu te amo. Pronto, falei.” Minha vez de fazer silêncio. “Há quanto tempo?” “Desde o dia em que a gente se conheceu na sala de teatro. Desde a primeira vez que olhei pra você.”
Eric chegou. O clima tava pesado, estranho. Eu nem lembro que filme fomos assistir. A conversa com André não saía da minha cabeça. Ele, aliás, fez questão de sentar longe de mim. Ficamos assim distantes por mais uma semana. Ele sempre parecia constrangido na minha presença e Átila fazia o que podia pra que tudo parecesse o mais normal possível. E então eu recebi uma carta...
André me entregou numa madrugada. Abri a porta de pijama e ele simplesmente colocou o envelope na minha mão, mas não disse nada. Nem voltei pro quarto pra ler. Sentei na primeira cadeira que vi. Na carta ele pedia desculpas por ter dito tão abruptamente (palavra dele) que me amava na hidromassagem e que foi lá que Átila soube também. Que como nunca tinha demonstrado nenhum sentimento em relação a mim não tinha direito de fazer isso agora. Também dizia que me amava e que era doloroso me ver “nos braços de outros” enquanto ele sofria calado. Mas não me pedia para parar. Não exigia nada.
Assim que terminei fui lá bater na porta dele. Quando chegamos ao quarto perguntei: “Porque você nunca disse nada?” “Porque não ia adiantar nada, você não sente a mesma coisa por mim.” “E quem disse que eu não posso sentir a mesma coisa por você? Eu não sinto porque nunca sequer pensei nisso, nunca achei que houvesse essa possibilidade. Eu te vejo quase como um irmão.” “Pronto. Aí está. Eu gosto de você e você me vê como irmão.” “Antes era assim. Agora te vejo como um cara super legal, que eu conheço e amo. E seria uma honra ser cortejada por você. Se você me ama, lute por mim.” E dei-lhe um beijo no rosto. “Boa noite”
No outro dia o clube se encontrou pra almoçar. André me chamou a um canto. Segurando minha mão e acariciando meu cabelo disse: “Conversei com o Átila. Ele concordou com você. Eu nunca sequer tentei né? Fiquei te vendo à distância. Fiquei com medo de começar alguma coisa e depois dar errado, ia acabar nossa amizade. Mas ele disse: “Você nem começou ainda, já ta pensando em acabar? Se não der certo eu te levo num puteiro e você esquece ela.” Ele tem razão. Não sobre o puteiro, mas sobre todo o resto. Pois bem, o que você acha de jantar comigo hoje anoite?” “Eu ia adorar.” Então ele me deu um beijo.
Quando voltamos à mesa tudo estava diferente. Éramos uma família de novo. Não havia mais distância nem entrelinhas. André me olhava e sorria, Átila fazia suas piadas infames e os outros três comentavam sobre o beijo de instantes atrás. O mundo era lindo de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário