terça-feira, 18 de maio de 2010

Dando um tempo

Depois que virei a decepção da turma resolvi tirar meu timinho de campo e viajei pro meu antigo interior. A poucos quilômetros da cidade tinha uma praia paradisíaca, ótimo lugar pra pensar e colocar a cabeça no lugar. Arrumei minha mochila, tranquei o apartamento, tirei uma folga do trabalho e peguei a estrada. Duas horas depois chegava à casa do meu tio.

Contei assim bem por alto o que tinha acontecido. Não queria que meu tio achasse que eu era uma “dessas” meninas. Não falei nada sobre sexo, apenas que gostava dos dois. E na cabeça dele tudo que a gente trocava eram beijos e abraços, nada de outros fluidos. Ele me entendeu. Mas também não tinha todas as informações.

Dali fui pra praia. Resolvi ir de ônibus porque tinha planos de encher a cara. Estava sentada numa cadeira, olhando pela janela quando alguém se sentou subitamente do meu lado. Era Sandro. Me abraçou e beijou minha bochecha. Ele tava mais bonito que antes, se é que isso é possível. Mostrou o sorriso lindo e devastador e me perguntou o que me preocupava. Contei a historia toda, com todos os detalhes. “Esses caras são dois imbecis.” “Não, o que eu fiz foi horrível.” Ele disse depois sorrindo: “Foi mesmo, mas você é uma menina legal. Eles vão te perdoar.”

Caminhando pela areia reencontrei muitos amigos dos tempos antigos. Inclusive a Lena e o Roberth. Ficamos todos juntos botando os papos em dia. Uma hora depois não lembrava mais que tava chateada. Foi um dia tranquilo e relaxante. Quando voltei pra casa quase anoitecia. Paramos na calçada e Sandro disse: “Você faz falta nessa cidade, nunca apareceu nenhuma como você. Tem até umas doidinhas que tentam, mas nenhuma se compara a você. Você era muito louca, menina.” Depois me deu um beijo.

Estava lendo um livro quando escutei uma buzina lá fora. Passava da meia noite. Abri a janela e vi velhos amigos num jipe. Pedro H. que estava lindo, Pedro L. que estava com o cabelo grande, Lena e Conrado. Tinham mais duas meninas no carro, mas essas eu não conhecia. “Tá esperando o que, guria?” Troquei minha roupa e subi no jipe. Fomos pro Malassombro, como nos velhos tempos.

Mas o que eu não sabia era que agora o Malassombro era uma casa noturna. Tinha um bar, sinuca e tocava todo tipo de rock. E um palco onde as bandas locais tocavam. “Nossa, achei que essa casa já tivesse caído.” Disse ao entrar. “Que nada, a prefeitura mandou reformar e fazer esse barzinho aqui.” Respondeu Pedro L.. “Legal que o nome ficou.”

Joguei um pouco de sinuca com o Conrado, o que era quase impossível já que ele era o melhor da cidade. Bebemos um bocado e fumamos um lindo baseado. Um carinha veio me queixar. Disse que eu era a menina mais bonita dali e que queria me beijar. Eu falei que não tava afim, mas ele não me deixou em paz. Foi então que o Sandro chegou. E o Sandro tinha presença. Quando ele entrava numa sala todo mundo sentia.

Ele se aproximou de mim e sem dizer nada “obrigou” o mazela que me queixava a sair do lugar. Obrigou simplesmente com sua presença. Depois se sentou e me deu um longo beijo. Estava provado que eu não era uma doidinha qualquer. Ficamos por lá até umas três da manhã. Mas resolvemos ir pra casa dele.

Colocou “With or without you” pra tocar. Apagou as luzes e nos deitamos na cama. Ficamos nos beijando durante um bom tempo. Já nus, suados e abraçados disse: “Tenta falar com eles, Lu. Eles vão te perdoar. Eu perdoaria.” Percebi que o dia amanhecia. Dormimos abraçados e acordamos ao meio dia.

Quando abriu a porta notei que os vizinhos nos observavam. Dei-lhe um beijo na frente de todos. Nos despedimos e voltei pra casa do meu tio, que aliás, já sabia que eu tinha dormido na casa do Sandro. Me encheu de perguntas e sermões, ao que eu respondi apenas: “Desculpa, mas o nariz é meu e quem manda nele sou eu.” “É, deixa sua mãe saber disso.” “O que ela vai fazer? Brigar? Engraçado, pra ela é tudo bem trepar com o Renato.” Isso pegou meu tio de surpresa. “O quê, achou que eu não soubesse?” Ficamos em silêncio.

Peguei minhas coisas e antes de sair disse: “Não ache que eu sou idiota, tio. Eu sei muito bem o que eu faço. Eu sei muito bem quem ele é. E se eu fosse ela, pensaria duas vezes antes de me dar lição de moral.” Dali fui pegar a estrada de volta. Duas horas depois chegava ao meu solitário apartamento.

Nenhum comentário: