Minha primeira separação foi assim: Dolorosa e separatista. Eric e Nayana ainda falavam comigo, quando nos encontrávamos no corredor ou algo assim. Mas não falavam de mim para os outros três. Os outros três não queriam me ver nem pintada. Pela primeira vez me senti só. Fiquei isolada do resto do grupo e sinceramente achei que mereci.
Mas na semana seguinte ao término a história mudou um pouco. Minha pia fez o favor de quebrar. E eu entendo de pias tanto quanto de ácidos desoxirribonucléicos. O susto que o jato d’água me deu me fez gritar. Alto. O cavalheiro mais próximo era André. Foi ele que veio em meu socorro.
Me vendo naquela situação (cômica) fez o que era mais nobre: ajudou. Conseguiu parar o vazamento com a blusa. “Pronto, tudo certo. Eu não preciso de blusa mesmo.” Eu ri. André olhou pra mim e deu um passo na minha direção. Um passo hesitado e pequeno. Dei um passo em sua direção também. O meu foi firme. Ele caminhou até mim decidido. Me beijou sem hesitar.
O chão alagado virou uma cama maravilhosa. Rapidamente a água ficou morna. Minha blusa foi parar no escorredor de pratos, meu short no fogão. Nos beijávamos de tal maneira que parecia que nosso ar estava no pulmão do outro. Paixão pura e simples. André me olhava como antes, com brilho no lugar de tristeza.
Alguém bateu á minha porta. Estávamos deitados abraçados no chão molhado. Átila chamou meu nome. Nos vestimos depressa. Abri a porta e Átila entrou desconfiado. “O que tá acontecendo?” “Um cano da pia que estourou, só consegui amarrar com a minha blusa.” André era um mentiroso medíocre. Gaguejava, suava, não conseguia olhar nos olhos. Mas nesse dia foi impressionantemente convincente. Átila simplesmente olhou ao redor e os dois saíram.
Depois desse momento não consegui parar de pensar em André. Até então só tinha pensado nele, óbvio. Mas era diferente. Pensava nele como alguém que eu magoei e que nunca mais iria me querer perto. Agora pensava com um sorriso de quem considera que foi perdoada. Os dois dias que eu passei chorando estavam completamente esquecidos.
Na noite seguinte André bateu á minha porta. Já entrou me beijando. Disse que estava com saudade, mas que ainda estava magoado. Ele fazia os dois diálogos na cabeça. O de acusação e o de defesa. Pedia desculpas, caminhava pra outro estremo da sala, falava várias vezes que o que eu fiz foi imperdoável e depois voltava a me beijar dizendo que me amava. “Você não precisa decidir agora. Eu não vou a lugar nenhum.” Disse abraçando-o. “Leve o tempo que você precisar.”
Dali fomos pro quarto. Ficamos abraçados conversando sobre bobagens. André contou como estava a faculdade e eu contei como estava meu trabalho. Contamos algumas piadas e ele enfim decidiu. “Preciso de mais um tempo, Lu. Quero muito te perdoar, mas quando penso no que você me disse, quando imagino vocês dois não consigo. Preciso digerir isso um pouco mais.” Eu já chorava. “Mas quero voltar a ser seu amigo. Sinto sua falta.” Dormimos abraçados.
Acordamos com os gritos de Átila. Nessas horas ele virava um pai super brabo. André sabia que era besteira tentar conversar com Átila alterado assim. Simplesmente saiu. Depois que André passou pela porta Átila se virou e me segurou pelos dois braços. “Você não acha que ele já sofreu demais? Quer o que é melhor pra ele? Então se afasta!” E me empurrou, nem percebeu que atrás de mim tinha uma poltrona. Eu rolei sobre ela e aterrissei na mesinha da sala. Mas Átila já tinha saído, não viu o que aconteceu.
Acredite quando eu digo que ele jamais faria algo assim de propósito, mesmo com raiva. Foi um acidente e nada mais. Digo isso porque acabei no hospital engessando o braço. Alguma coisa com meu cotovelo. E nas minhas costas e costelas lindos hematomas. Lindos porque pareciam uma pintura cubista. Aprendi assim uma digna lição: Aqui se faz, aqui se paga.
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